2005-07-27

"Eu sou"

[...] você é mais do que pensa. Existem dimensões do seu próprio ser e um potencial de realizações e ampliação da consciência que não estão incluídos no conceito que você faz de si mesmo. Sua vida é mais profunda e ampla do que você a concebe, aqui. O que você está vivendo é só uma fração infinitesimal daquilo que realmente se abriga no seu interior, aquilo que lhe dá vida, alento e profundidade. E você pode viver em termos desta profundidade, e quando chega a essa experiência, você percebe, instantaneamente, que é disso que falam todas as religiões.


Joseph Campbell

Identidade, Medo, Desejo. Paixão?

Há uma história [hindu] maravilhosa sobre o deus da Identidade, que disse "Eu sou". E assim que disse "Eu sou", teve medo.

[Teve medo] porque passou a ser uma entidade, no tempo. Então pensou "De que eu poderia ter medo, se sou a única coisa que existe?" E assim que o disse, sentiu-se solitário, e quis que houvesse outro, ali, e então sentiu desejo. Aí cindiu-se, dividiu-se em dois, tornou-se macho e fêmea, e originou-se o mundo.


Joseph Campbell

Paixão é Amor (desejo?) em grande intensidade mais Medo em grande intensidade.


Flávio Gikovate
Terei captado uma espécie de "Design Pattern"?? o_O

2005-07-26

Sandman - The Dream Hunters

Nada como estar de férias. Estou botando a leitura em dia.

Como não podia deixar de deixar vocês com inveja, regularmente vou colocar minhas impressões sobre o que estou lendo.

Hoje, falo sobre Sandman - Os Caçadores de Sonhos. Seguem palavras de Neil Gaiman:

Enquanto eu me preparava para escrever, li todos os livros que pudesse encontrar sobre a história e a mitologia japonesas. E foi no livro do Reverendo B. W. Ashton, Fairy Tales of Old Japan, que encontrei o conto que o Sr. Ashton chamou de "A Raposa, o Monge e o Mikado dos Sonhos" e fiquei chocado com as semelhanças, algumas quase inquietantes, entre o contro japonês e minha série SANDMAN.

O que vocês vêem aqui não é nada comparado ao livro. Espero que gostem.


"Como encontrar paz?", ele perguntou à mais velha das mulheres.

"Há paz no túmulo", ela respondeu, " e paz momentânea na contemplação de um belo pôr-do-sol."

Ela estava nua, seus seios caíam como sacolas vazias sobre o colo e em seu rosto ela havia pintado a face do demônio.

O onmyoji ficou zangado e bateu impacientemente com o leque na palma da mão.

"Por que não tenho paz?", ele perguntou à mais jovem.

"Porque você está vivo", ela respondeu com seus lábios frios. A mais jovem das mulheres era a que mais amendrontava o onmyoji, porque ele suspeitava que ela não estivesse viva. Era bela, mas de uma beleza congelada. Quando ela o tocava com seus dedos frios, ele estremecia.

"Onde posso encontrar paz?", ele perguntou à mulher que não era jovem nem velha.

Ela não estava nua, mas suas vestes estavam abertas e em seu peito havia duas fileiras de seios, como as tetas de uma leitoa ou de uma rata, os diversos mamilos negros e duros como carvões.

Ela sugou o ar através dos dentes, prendeu-o e, após um longo momento, expirou. Então disse:"[...] Esse homem não tem medo de nada e tem a paz que você deseja. [...] E ele deve morrer sem violência e sem dor, ou a trama se desfiará".



Mas lembrando de tudo que haviam feito um pelo outro, pode-se presumir, agora, que eles fizeram amor. Ou sonharam que fizeram.

Talvez.

Quando terminaram suas despedidas, o Rei dos Sonhos voltou até eles.

Agora, tudo está como deveria ser, ele disse, e o monge se viu dentro do espelho olhando para a raposa.

"Eu teria dado minha vida por você", ela sussurrou suavemente.

"Viva", disse o monge.



"E qual foi o bem que isso trouxe?", perguntou o corvo.

Bem?, perguntou o Rei dos Sonhos.

"Sim", disse o corvo. "[...] Ao atender o desejo dela, que bem fez?"

O Rei olhou para o horizonte. Em seu olhar, uma estrela solitária piscou e desapareceu.

Lições foram aprendidas, disse o pálido Rei. Os eventos ocorreram apropriadamente. Eu não creio que minha atenção foi desperdiçada.

"Lições foram aprendidas?", perguntou o corvo, arrepiando as penas do pescoço e erguendo alto sua cabeça negra. "Por quem?"

Por todos. Particularmente o monge.

[...]

"E você também aprendeu uma lição?", perguntou o corvo, que um dia fora um poeta.

Mas o Rei pálido não respondeu e permaneceu envolto em silêncio, olhando para o horizonte. [...]


Sabem, eu conheço uma raposa...

2005-07-16

Pesquisa de Weblogs do MIT

MIT Weblog Survey

Participe você teambém.

Eu estou respondendo o questionário hoje.



Vi lá no Alfarrábio.
Tá. Eu sei... Ando com a leitura atrasada... :-)

Tocando o Eterno

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas [alguns mitos] nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.

Joseph Campbell O Poder do Mito.

2005-07-15

Evolução

Para meditar...

Compreender intelectualmente determinados mecanismos e comportamentos nos apazigua e nos deixa numa condição emocional bastante melhor. Só isto já seria o suficiente para que o conhecimento fosse uma coisa valiosíssima. É evidente também que só a verdade - ou boas aproximações desta condição absoluta e nem sempre atingível - poderá nos provocar esta serenidade íntima. Aliás, este é um bom critério para sabermos se uma dada explicação é boa ou não. É evidente também que novas informações, além de nos acalmar porque nos esclarecem em certos aspectos da nossa forma de ser e da forma como nos relacionamos, são geradoras de novas perguntas e, portanto, de novas inquietações. As perguntas nos inquietam e nosso cérebro passa a buscar respostas, pois são estas que nos apaziguam. É desta forma que evoluímos, nós que gostamos de saber cada vez mais; nós que temos a coragem de suportar as angústias que as novas dúvidas nos geram.

Sempre acreditei que o conhecimento é o caminho a ser seguido e a sabedoria a meta a ser perseguida. Acho que a evolução emocional é posterior à evolução intelectual. A primeira acompanha, às vezes com anos de atraso, a segunda. De nada adianta uma pessoa ser capaz de se desfazer das amarras que a prendem ao passado, às experiências de sua infância e adolescêwncia, se ela não tiver metas e objetivos que a movam para a frente. Desamarrar-se das coisas do passado não impulsiona ninguém para a frente; permite o movimento evolutivo mas não o determina. Quem provoca a evolução é a razão, com seus novos ideais e suas novas metas. E estas metas só podem derivar do conhecimento, de novos dados e informações que sejam sentidos como consistentes e úteis. Se não houver este movimento evolutivo, o que acabará acontecendo é que as amarras que nos prendem ao passado, mesmo se tiverem sido desfeitas através de difíceis trabalhos psicoterápicos, se reconstruirão.

Flávio Gikovate Homem: o Sexo Frágil?

É possível que eu não esteja tão errado assim...


Para alguém especial,
E que será sempre especial,
Por mais distante que estejamos.

2005-07-14

My ragtime girl

mjfrog6

Às vezes, só esta turminha pra animar um pouco o dia... :-)

Pois não é que no almoço de hoje alguém me lembrou do Michigan Frog? Aquele sapinho do desenho da Looney Tunes...

Bobagem vem, bobagem vai e ninguém conseguia lembrar da musiquinha... Bom, aqui vai!



HELLO MY BABY !

(Ida Emerson / Joseph E. Howard)

The Andrew Sisters

Hello, my baby
Hello, my honey
Hello, my ragtime gal

Send me a kiss by wire
Baby, my heart's on fire

If you refuse me
Honey, you'll lose me
Then you'll be left alone

Oh baby, telephone
And tell me I'm your own

Se vc quer ouvir a musiquinha, clique aqui.

2005-07-10

Estereótipos: Magoados e Magoantes

Todos queremos acertar. A maioria quer fazer o que convencionou-se chamar de "O Bem". Ninguém quer ser vítima do que convencionamos chamar de "O Mal".

Na escola, na Igreja, em nossa família, no nosso trabalho e até no cinema somos condicionados a aceitar estereótipos de valores e comportamentos que visam evitar o "Mal" e promover o "Bem". E se já complicado tudo isto não fosse, ocorre que nem todos concordam com os mesmos estereótipos, e somos obrigados à conviver numa sociedade repleta de conceitos mutuamente exclusivos...

E então saímos mundo afora fazendo o nosso melhor, e indo dormir felizes e satisfeitos por estarmos fazendo "a nossa parte". "Just do it".

Mas eis que então o impensável acontece : você sofre. Ou faz sofrer.

Ou ambos....

Por quê? Por que tanta gente acreditando num mesmo ideal consegue divergir tanto dele? Por que é tão comum que um grupo de pessoas, que pensam e buscam as mesmas coisas, inadvertidamente magoem-se ou, juntas, magoem quem está de fora?

Penso que a raiz deste problema está naqueles malditos estereótipos que falei acima.

Aparentemente as pessoas assumem que as demais pessoas se encaixam (monotonicamente!) em certos estereótipos, e simplesmente agem da forma que acham conveniente (ou foram ensinadas) para satisfazer o que se entende sendo as necessidades destes estereótipos...

Eventualmente funciona, seja porque realmente a pessoa se adequou à perfeição ao estereótipo selecionado, seja por pura sorte.

Mas às vezes não funciona.

E então, assombrados e espantados, nos perguntamos o que diabos aconteceu de errado.

Interessante que normalmente fazemos esta pergunta à nós mesmos...
Mas raramente o fazemos à pessoa que magoamos!

E seguimos todos, magoados e magoantes, perpetuando as nossas ofensas assim como perpetuamos as causas que nos fazem sentir ofendidos.


E há outros tantos que, capazes de superar os estereótipos com os quais nossa sociedade nos programa a psiquê, visualizam a diferença entre o que parece ser certo, e o que de fato é certo. E então, orgulhosos e satisfeitos, tomam a atitude correta, no momento oportuno.

Mas eis que então o impensável novamente acontece : sofrem. Ou fazem sofrer.

Ou ambos....

Por quê? Por que as pessoas que, mesmo efetivamente realizando o que é certo, eventualmente causam tantos estragos emocionais quanto se houvessem feito tudo errado?

Por que uma pessoa que se encaixa no estereótipo do "generoso" termina por causar tantas mágoas quanto uma pessoa que se encaixa no estereótipo do "egoísta" - se não mais?

Penso que a raiz deste problema está naqueles malditos estereótipos que falei acima.

Aparentemente, mesmo capazes de superar os estereótipos que nos condicionam a ação, ainda somos escravos dos estereótipos que nos condicionam a comunicação. Simplesmente imaginamos o quão óbvio é o objetivo das ações que tomamos, o quão evidente é a razão de nosso comportamento, o quão claro é o sentimento que nutrimos...

Simplesmente imaginamos não ser necessário explicar a alguém que nossas críticas e/ou mágoas referem-se à coisas que ela fez, mas não ao que ela é ou o que representa para nós. Imaginamos não ser necessário dizer que magoados ou não, continuamos as amando. E continuaremos as amando após as mágoas serem perdoadas, esquecidas ou (idealmente) ambas...

E seguimos todos, magoados e magoantes, perpetuando as nossas ofensas assim como perpetuamos as causas que nos fazem sentir ofendidos.


Precisamos superar nossos estereótipos. Eles são úteis como ferramenta de internalização de conceitos, mas são terríveis para externalizá-los: podemos aprender com os estereótipos, mas jamais agir com base neles.

Eles são por demais limitados. Eles são por demais superficiais.

Precisamos conhecer as pessoas com as quais convivemos, e se desejamos compartilhar algo de nossoa vida com elas, precisamos conhecê-las muito mais. Decerto que nunca as conheceremos o suficiente, mas também é certo que quanto mais conhecemos alguém menos a magoamos (ou somos magoados por ela!!).

E a única forma de conhecer uma pessoa que conheço é comunicando-se com ela: perguntando o que ela é, o que ela quer e o que ela não quer; ouvindo quando te diz o que lhe agrada e o que lhe desgosta; perguntando se o que lhe oferecemos é satisfatório ou não; ouvindo quando a desapontamos.

Quem não se comunica, se trumbica!

E só então nos perdoarão por nossas ofensas assim como perdoaremos a quem nos tem ofendido.

2005-07-08

Amor no século da pressa

Quem não gosta de ser amado? Ser paparicado? Receber atenção especial, presentinhos e beijinhos doces? Quem não gosta de surpresinhas gostosas, beijo na boca e abraços apertados? Quem é que de livre e espontânea vontade prefere a solidão a uma boa companhia?

Ora, todo mundo quer uma boa companhia e de preferência para o todo sempre.

Mas conviver com essa "boa companhia" diariamente por 3, 5, 10, 15, 25 anos que é o difícil. No começo dos relacionamentos e até 1 ano de vida amorosa, tudo são mais ou menos flores, (se o seu relacionamento tem menos de um ano e já é mais de brigas e discussões, caia fora dessa fria). Não adianta você dizer que depois de três meses apenas que "encontrou o amor de sua vida", porque o amor precisa de convivência para ser devidamente testado.

Nesse mundo maluco e agitado, as pessoas estão se encontrando hoje, se amando amanhã e entrando em crise depois de amanhã. Uma coisa frenética e louca que tem feito muita gente, que se julgava equilibrada, perder os parafusos e fazer muita besteira.

Paixão, loucura e obsessão, três dos mais perigosos ingredientes que estão crescendo nos relacionamentosde hoje em dia por causa da velocidade das informaões e o medo de ficar sozinho. As pessoas não estão conseguindo conviver sozinhas com seus defeitos, vícios e qualidades, e partem desesperadamente para encontrar alguém, a tal da alma gêmea, e se entregam muitas vezes aos primeiros pares de olhos que piscam para o seu lado.

Vale tudo nessa guerra, chat, carta, agência, festas e até roubar o parceiro de alguém. É uma guerra para não ficar sozinho.

Medo? Com medo de se encarar no espelho e perceber as próprias eficiências? Com medo de encarar a vida e suas lutas?

Então a pessoa consegue alguém (ou acha que está nascendo um grande amor), fecha os olhos para a realidade e começa a viver um sonho, trancado em si mesmo, nos quartos e no seu egoísmo. A pessoa transfere toda a sua carência para o(a) parceiro(a), transfere a responsabilidade de ser feliz para uma pessoa.

Que na verdade ela mal conhece.

Então, um belo dia, vem o espanto, a realidade, o caso melado, o "falso amor" acaba, e você que apostou todas as suas fichas nesse romance fica sem chão, sem eira nem beira, e o pior: muitas vezes fica sem vontade de viver.

Pobre povo desse século da pressa!

Precisamos urgentemente voltar o costume "antigo" de "ter tempo", de dar um tempo para o tempo nos mostrar quem são as pessoas. Namorar é conhecer, é reconhecer, é a época das pesquisas, do reconhecimento...

Se as pessoas não se derem um tempo, não buscarem se conhecer mais, logo em breve teremos milhares de consultórios lotados de "depressivos" e cemitérios cada vez mais cheios de suicidas "seres cansados de si mesmos...".

Faça um bem para si mesmo e para os outros, quando iniciar um relacionamento procure dar tempo para tudo: passeie muito de mãos dadas, converse mais sobre gostos e preferências, conheça a família e mostre a sua, descubra os hábitos e costumes.

Parece careta demais? Que nada, isso é a realidade que pode salvar o relacionamento e muitas vidas.

Pense nisso e se gostar, passe essa mensagem para frente; quem sabe se juntos, não ajudamos alguém carente de amor a encontrar um motivo para ser feliz?

Muita pretensão?

Não, vontade de te ver feliz.


De acordo com a Alessandra (obrigado pelo texto!!),
Luís Fernando Veríssimo

2005-07-06

Porque Tempo é meu presente mais valioso

Uma lástima que nem sempre eu seja compreendido. Ou correspondido.

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente."

"O Tempo", Roberto Pompeu de Toledo*

*12 anos depois e eu descubro o real autor desta obra.
Bom, antes tarde do que nunca!