2005-07-10

Estereótipos: Magoados e Magoantes

Todos queremos acertar. A maioria quer fazer o que convencionou-se chamar de "O Bem". Ninguém quer ser vítima do que convencionamos chamar de "O Mal".

Na escola, na Igreja, em nossa família, no nosso trabalho e até no cinema somos condicionados a aceitar estereótipos de valores e comportamentos que visam evitar o "Mal" e promover o "Bem". E se já complicado tudo isto não fosse, ocorre que nem todos concordam com os mesmos estereótipos, e somos obrigados à conviver numa sociedade repleta de conceitos mutuamente exclusivos...

E então saímos mundo afora fazendo o nosso melhor, e indo dormir felizes e satisfeitos por estarmos fazendo "a nossa parte". "Just do it".

Mas eis que então o impensável acontece : você sofre. Ou faz sofrer.

Ou ambos....

Por quê? Por que tanta gente acreditando num mesmo ideal consegue divergir tanto dele? Por que é tão comum que um grupo de pessoas, que pensam e buscam as mesmas coisas, inadvertidamente magoem-se ou, juntas, magoem quem está de fora?

Penso que a raiz deste problema está naqueles malditos estereótipos que falei acima.

Aparentemente as pessoas assumem que as demais pessoas se encaixam (monotonicamente!) em certos estereótipos, e simplesmente agem da forma que acham conveniente (ou foram ensinadas) para satisfazer o que se entende sendo as necessidades destes estereótipos...

Eventualmente funciona, seja porque realmente a pessoa se adequou à perfeição ao estereótipo selecionado, seja por pura sorte.

Mas às vezes não funciona.

E então, assombrados e espantados, nos perguntamos o que diabos aconteceu de errado.

Interessante que normalmente fazemos esta pergunta à nós mesmos...
Mas raramente o fazemos à pessoa que magoamos!

E seguimos todos, magoados e magoantes, perpetuando as nossas ofensas assim como perpetuamos as causas que nos fazem sentir ofendidos.


E há outros tantos que, capazes de superar os estereótipos com os quais nossa sociedade nos programa a psiquê, visualizam a diferença entre o que parece ser certo, e o que de fato é certo. E então, orgulhosos e satisfeitos, tomam a atitude correta, no momento oportuno.

Mas eis que então o impensável novamente acontece : sofrem. Ou fazem sofrer.

Ou ambos....

Por quê? Por que as pessoas que, mesmo efetivamente realizando o que é certo, eventualmente causam tantos estragos emocionais quanto se houvessem feito tudo errado?

Por que uma pessoa que se encaixa no estereótipo do "generoso" termina por causar tantas mágoas quanto uma pessoa que se encaixa no estereótipo do "egoísta" - se não mais?

Penso que a raiz deste problema está naqueles malditos estereótipos que falei acima.

Aparentemente, mesmo capazes de superar os estereótipos que nos condicionam a ação, ainda somos escravos dos estereótipos que nos condicionam a comunicação. Simplesmente imaginamos o quão óbvio é o objetivo das ações que tomamos, o quão evidente é a razão de nosso comportamento, o quão claro é o sentimento que nutrimos...

Simplesmente imaginamos não ser necessário explicar a alguém que nossas críticas e/ou mágoas referem-se à coisas que ela fez, mas não ao que ela é ou o que representa para nós. Imaginamos não ser necessário dizer que magoados ou não, continuamos as amando. E continuaremos as amando após as mágoas serem perdoadas, esquecidas ou (idealmente) ambas...

E seguimos todos, magoados e magoantes, perpetuando as nossas ofensas assim como perpetuamos as causas que nos fazem sentir ofendidos.


Precisamos superar nossos estereótipos. Eles são úteis como ferramenta de internalização de conceitos, mas são terríveis para externalizá-los: podemos aprender com os estereótipos, mas jamais agir com base neles.

Eles são por demais limitados. Eles são por demais superficiais.

Precisamos conhecer as pessoas com as quais convivemos, e se desejamos compartilhar algo de nossoa vida com elas, precisamos conhecê-las muito mais. Decerto que nunca as conheceremos o suficiente, mas também é certo que quanto mais conhecemos alguém menos a magoamos (ou somos magoados por ela!!).

E a única forma de conhecer uma pessoa que conheço é comunicando-se com ela: perguntando o que ela é, o que ela quer e o que ela não quer; ouvindo quando te diz o que lhe agrada e o que lhe desgosta; perguntando se o que lhe oferecemos é satisfatório ou não; ouvindo quando a desapontamos.

Quem não se comunica, se trumbica!

E só então nos perdoarão por nossas ofensas assim como perdoaremos a quem nos tem ofendido.