2005-08-15

O que é a Verdade?

Você já se fez esta pergunta? Conseguiu responder?

Sim, eu já me fiz esta pergunta e, na época, não cheguei a uma resposta satisfatória.

Propus, então, a questão ao grupo de discussões da galerinha de testes lá do trabalho (nossa... já faz tanto tempo assim?) com resultados previsíveis : uma baita discussão mastodôntica que durou dias e gerou dezenas e mais dezenas de emails (teriam chegado à 100? vou verificar quando voltar ao batente...).

Proposições houveram aos montes :

  • A Verdade é o inverso da Mentira : o que não é mentira, tende a ser verdade!
  • Não existe uma Verdade - mas sim uma miríade de verdades individuais (Verdade Individual?)
  • A Verdade é o que as pessoas acreditam ser verdade (Verdade Coletiva?)
  • A Verdade está além da compreensão humana (Verdade Divina?)
  • A Verdade é uma ilusão

Mas nenhuma delas resistiu ao mais elementar debate. Há sempre pontas soltas, partes que não se encaixam. "Verdades incompletas".

Definirmos Verdade em termos de Mentira não funcionou, porque também não conseguimos definir o que é Mentira sem usar o conceito de Verdade - e dois conceitos mutuamente interligados não podem - pelas leis da Lógica e da Razão - ser usados para provarem-se mutuamente.

Admitir que não exista uma Verdade, mas apenas pequenas e infinitas verdades individuais parece uma tese aceitável. No entando, ela nega a existência da Mentira: se cada um possui a sua verdade individual, uma "mentira" seria apenas a verdade individual de alguém que não é compartilhada por outrem... Parece-me mais fácil negar a existência da Verdade que da Mentira - é senso comum que as pessoas mentem...

Pensar na Verdade como feita pelas crenças da maioria das pessoas parece ser bonito e democrático, mas não corresponde à realidade : a maioria das pessoas podem acreditar em idéias falsas e perseguir objetivos absurdos em nome de um falso ideal (alguém mencionou Nazismo?). A Verdade não está na maioria.

Imaginar que a Verdade está além da compreensão humana é admitir a sua inexistência em termos práticos. De que adianta perseguir um conceito o qual eu não compreendo? Isto é dogmatizar a Verdade, transformá-la em religião...

Concluir que a Verdade é apenas uma ilusão leva à conclusão de que a Mentira também o é. Mas as pessoas mentem, e isto não é ilusão. Se as pessoas mentem e também não mentem, quando não estão mentindo elas falam o quê?


Hoje, eu penso que a Verdade, tanto quanto a Mentira, são apenas faces opostas da mesma moeda - moeda esta que usamos para pagar os "débitos" que adquirimos por nossa falta de sinceridade para com as pessoas.

Porque a Verdade é complementar à Mentira, e vice versa - e não o seu oposto. O oposto da Verdade é também o oposto da Mentira.

O oposto da Verdade e da Mentira é a Sinceridade. Quando existe Sinceridade entre duas pessoas os conceitos de Verdade e Mentira deixam de ser necessários.


Onde há Sinceridade, verdades e mentiras são irrelevantes.

Seria utopia? Talvez...

Mas eu persisto nesta busca.

2005-08-10

Primeiras Sílabas

Numa de minhas recentes leituras, o autor discorria sobre o processo da formação do caráter infantil - influenciada sobremaneira pela identificação que a criança adquire com um dos pais.

Pensa daqui, pensa dali (e dormir que é bom, necas!!), acabei lembrando de algumas histórias de minha própria infância - que D. Lenita, minha mãe, sempre insistiu em contar a cada uma das minhas namoradas, a alguns amigos e - eventualmente - alguns dos nem tão amigos assim...

Bom, vou abrir concorrência com a mamãe.... :-)


Afirma minha mãe que uma das maiores expectativas da família foi qual seria minha palavra proferida. Seria "Papai"? Seria "Mamãe"?

Eu não lembro quantos meses eu tinha - eu já era grandinho o suficiente para pegar a mamadeira com as mãos e levá-la à boca mas não o suficiente para ficar sem fraldas no berço - mas um belo dia ao me oferecer a "refeição" (uma enorme - do meu ponto de vista - mamadeira cheia de leite), eu catei a mamadeira das mãos dela (normal) e disse:

Bigado!!!

Com ponto de exclamação e tudo!!

Este "bigado" foi dito tão de supetão, de uma forma tão inesperada, que minha mãe disse que tudo o que sentiu um tremendo susto! :-P

Eu diria que este começo de interação social tem realmente a ver comigo : na impossibilidade de agradar ambas as partes, a verdade que eu tendo a desagradar à todas!! :-D


Uma lembrança leva à outra, e a história se repete. Ou não... ;-)

Deste vez é sobre meu filho, Yan, que repousavam as expectativas da primeira palavra. Seria "Mamãe"? Seria "Papai"? Seria alguma outra coisa? ("Cazzo! Será que eu devia policiar melhor meu vocabulário na presença do moleque????")

E os meses se passaram, e o guri mudo.

Até que um dia, em que eu e minha então cônjuge estávamos brincando com o Yan na cama - ele estava sentado sobre minha barriga, enquanto fazíamos brincadeiras para estimular sua concentração e coordenação motora - ele olha pra minha cara e diz, sonoramente e com dicção perfeita:

Papaiiii

Meus caros, o moleque falou até o pingo do "i". 8-)

Eu não vou entrar em detalhes sobre a cara da Sheila no evento (tenho amor à minha integridade física), mas vocês podem apostar seus mouses que minha alegria e orgulho estavam estampados na minha face.

Foi a primeira vez que fui chamado de "pai".

Férias

Bom, apesar de não parecer (este blog já esteve mais ativo, admito), estou em férias!! :-)

Desde o dia 22 do mês passado que minhas únicas preocupações trabalhistas são "quanto ainda tenho de salário na minha conta??". Infelizmente a resposta nunca foi "o bastante pra fazer tudo o que quero", mas tenho tido o suficiente para algumas necessidades básicas que tenho negligenciando nos últimos 18 meses. Não posso ficar contrariado, posso?? O:-)

Decerto que nem tudo têm sido flores: por motivos diversos (e acreditem, alheios à minha vontade)

  • ainda não tirei os pés da cidade (nem pra ir à Presidente Figueiredo!! Santa Heresia!!),
  • não vi todos os amigos que estavam por aqui de passagem (e que já se foram - este é o lado ruim de tirar férias temporãs!!),
  • não dei um único gole de Ale no Fellice durante a semana (nada como encher a cara sem culpa!!)
  • tampouco arrumei meu apartamento (taí: disto eu não me arrependo... ainda... heheheheh).
  • Mas o pior é que não consegui levar meu filho no cinema!

Porque além de tudo, o guri me pega uma pneumonia neste domingão último e vai passar a semana inteira de molho!!! Como ele está se recuperando bárbaramente bem, acredito que eu consiga salvar a próxima semana para ele - mas já estou acendendo velas desde já!

Mas se tem uma coisa que tenho feito à exaustão é ler.

Aproveitando os momentos de insônia que me são peculiares (ou talvez até mesmo causando-os!!), o fato é que estou lendo um livro atrás do outro - minha média é de um a cada três dias, mas já li um livro inteiro numa tacada só!! ;-)

Não são apenas livros de entretenimento (como "3001, a Odisséia Final" de Arthur C. Clarck; ou os livros da Neil Gaiman, cujas sinopses estou postando aos poucos), mas também livros instrutivos, enriquecedores ou simplesmente esclarecedores:

  • Desde Joseph Campbell até Flávio Gikovate (ok, ok... e um pouquinho de Maria H. Matarazzo);
  • Desde Filosofia Metafísica ("A Pílula Vermelha" e "Matrix: Bemvindo ao Deserto do Real") até Filosofia do Trabalho ("O Ócio Criativo", de Domenico Demasi);
  • Desde História recente do Brasil (a série "Ditadura" do Elio Gaspari é simplesmente fantástica) até uma retratação história notável da França do sec. XVIII ("Os Miseráveis", de Victor Hugo - indescritível);
  • Desde clássicos da antigüidade ("A Divina Comédia", de Dante Alighieri) até clássicos da Modernidade ("Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust);
  • E mesmo um pouco de religião (basicamente, Allan Kardec)

30 dias não são suficientes para dar cabo de tanto material, com certeza. E levando em consideração que ainda não adquiri todos os livros que quero ler (como a série "Foundation" do Mestre Asimov; ou "Minority Report" e "Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Phillp K. Dick - estes eu quero ler no original em inglês!), vocês podem ter certeza de que passarei ainda muitos meses lendo - não pretendo mais negligenciar minhas necessidades básicas, a leitura uma delas.


Eu não sei quantificar a importância que minhas leituras têm tido nas últimas semanas.

O processo de "auto-reapresentação" que tenho sofrido desde a inauguração deste blog (e que também foi o principal motivo por sua criação) tem me levado por caminhos que eu havia esquecido que trilhei.

Agora, este processo de auto-conhecimento está se voltando, lentamente mas inexoravelmente, rumo à trilhas desconhecidas, a lugares que eu ainda não estive, a processos que eu desconheço e a resultados que não posso mais prever.

Estou começando à descobrir um Pink que eu ainda não conhecia.

Estou descobrindo habilidades que eu não sei se já me eram natas e apenas latentes, ou se estão sendo forjadas - a ferro e a fogo - pelo processo desencadeado há quase um ano.

E também estou descobrindo novas incapacidades e inseguranças - talvez frutos ou conseqüencias das tais "novas" habilidades.

É um processo sem fim - e o que me espera no futuro me é uma completa incógnita.

2005-08-04

Desejos e Caprichos. Necessidades e Prazeres

Tempos modernos.

Tempos em que Satisfação é uma ordem.

Tempos em que a busca frenética e cotidiana por nossos objetivos, sonhos e desejos (sejam eles egoístas ou altruístas) nos é acintosamente cobrada por uma Sociedade direcionada pelo Consumo e pela Ignorância.

Consumo que prega a Satisfação como algo a ser alcançada pelo simples aquisição de bens e serviços (inclusive sexuais!).

Ignorância que nos deixa cegos, surdos e insensíveis à tudo que vêm de nós mesmos (e que, portanto, não pode ser adquirido no Mercado!).


Porque nem todos os Prazeres satisfazem nossas Necessidades.

Porque nem todos os Caprichos satisfazem nossos Desejos.

Porque nossas Necessidades e Desejos emanam de nós - e somente de nós virá a força que conduzirá à Satisfação.


Nossa Educação é falha.

Não somos educados para diferenciar Desejos de Caprichos. Não somos educados para diferençiar a Satisfação do Prazer.

Somos induzidos, pela ganância (nossa? de terceiros?), a trilhar caminhos equivocados em nossa busca por Felicidade. Felicidade esta que também não sabemos o significado.


E então buscamos a realização de nossos Caprichos, confundindo-os com nossos Desejos.

E então buscamos a realização de nossos Prazeres, confundindo-os com nossas Necessidades.


Apostamos tudo o que temos em fugazes momentos de Alegria para então, atônitos e mortificados, nos descobrirmos infelizes.

Satisfazer nossos Caprichos e Prazeres são sim fonte de alegrias e entretenimento. E Alegria e Entretenimento são bons para o corpo e para a mente. Mas não levam à Felicidade.

Porque a Felicidade vem da Alma (ou seja lá o nome que você dê à isso!!).

A Felicidade é a satisfação de suas Necessidades e Desejos.

A Felicidade é o sentimento que nos preenche quando percorremos a trilha de nossa Bem-Aventurança.

Mas cada encarnação [...] tem uma potencialidade e a missão da vida é vivê-la. Como fazê-lo? Minha resposta é "Siga a sua bem-aventurança". Há algo em seu interior que sabe quando você está no centro, quando você está na direção certa ou fora dela. E se abandonar a direção para ganhar dinheiro, você perdeu a sua vida. Se estiver no centro e não conseguir dinheiro, você ainda tem a sua bem-aventurança.
Joseph Campbell
O Poder do Mito

Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?

[...]

Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.


Jesus Cristo
O Sermão da Montanha
Mateus 6-25