2009-12-05

A Pira

O dia enfrenta seu fim.

Belenus cede seu posto no céu às estrelas e à uma Lua vermelha, que paira sobre uma pequena aldeia de quase 50 choupanas.

_ “Sangue será derramado hoje”, pensam consigo os que se preparam para a vigília noturna. Foi quando notaram um viajante solitário que se aproximava, impávido, rumo ao portão da vila.

_ “Não o molestem”, grita o Guardião, do alto da torre. “Por ordem do Rei!”

O jovem guerreiro adentrou a tribo, silencioso, resoluto e confiante.

De tez clara e pele coberta por cicatrizes (só menos impressionantes que a reluzente Gladius Hispaniensis em sua bainha), atravessou o assentamento rumo ao Salão do Rei.

_ “Uma espada romana...”, sussurra assombrado, ao seu companheiro, um dos vigias.

_ “Não, não apenas uma espada romana! Eu vi uma destas apenas uma vez, quando as tropas de César, em pessoa, tomaram Boii... Como, em nome de Camulus, este rapaz conquistou uma destas é que eu não sei...”

A Guarda Pessoal do Rei abre caminho enquanto, altivo e arrogante, o jovem atravessou os umbrais do recinto real.

_ ”Você nos abandonou”, vocifera atrevido, “minha mãe está morta e é a você que eu culpo!!”

_ “Você não sabe o que fala...”, intervém Moyna, ríspida, célere e certeira como uma flecha.

_ “Calem-se”, ordena o Rei. “É tarde, estou cansado e nosso convidado tem fome. Conversaremos pela manhã. Meu filho, há longo tempo sumido, não dormirá faminto e, muito menos, ao relento.”

Moyna fechou o cenho, e com o semblante sombrio encarou o jovem, olhos nos olhos, antes de se retirar.


No meio desta noite, um vulto feminino atravessa a aldeia rumo aos aposentos reservados aos hóspedes do Rei.

No fim da madrugada que se seguiu, um vulto masculino atravessa a aldeia rumo aos aposentos do Rei.

E ao amanhecer, um corpo dilacerado, uma Gladius ensangüentada e um forte odor ferroso são tudo o que resta - o jovem celta se fora.


A pira funerária arde, rivalizando com sua luz a de Arianrhod.

_ “Vou persegui-lo. Matarei o bastardo...”, sussurra o Guardião em ódio.

_ “Você acatará as ordens do Rei, esteja ele vivo ou morto...”, retruca, com voz triste e cansada, Moyna.

_ “Não compreendo como você consegue manter esta aparência serena e segura. É seu pai quem arde nesta noite...”, resmungou o Guardião, quase insolente.

Moyna responde autoritária: “Não sou mais a filha do Rei. Sou, agora, sua Rainha, e você, doravante, me respeitará como tal.”

O Guardião aquiesce.

_ “Quanto ao meu meio irmão”, continua, “seu tempo chegará: todo homem traz dentro de si a semente de sua própria destruição. Ouça-me quando vaticino que sua semente encontrou solo fértil quando foi semeada na aurora deste dia negro”.

_ “Os que ainda não nasceram não estão sob o juramento de lealdade ao Rei que se vai. Meu filho saberá reconhecer seu pai.”

A pira ardeu por toda a noite, iluminando semblantes lúgubres.


Este foi meu "conto de conclusão de curso" das Quartas Feiras Macabras, homenagem à Edgar Allan Poe, que ocorreu na Casa Das Rosas em Novembro de 2009 tendo como "Meu Mestre de Conto Fantástico" o artista literário Luiz Roberto Guedes, de quem muito me orgulho do privilégio de compartilhar uma mesa de bar (tá, LRG, aqueles dois copos imensos de Ballantine não eram nada! :-P) e uma invasão, como penetras, em um evento no Itaú Cultural da Paulista.

Ainda estou inconsolável por não ter conseguido o telefone da hostess que, sabe Deus o motivo, me deixou entrar sem convite.