2006-04-02

Merda! Sou Lúcido!

Um dos efeitos colaterais (ou um dos frutos amargos que tenho colhido) do processo de aprendizado que este blog representa é... Lucidez.

Já é longinqüo o dia em que acordei para a vida ao meu redor e percebi que as coisas não eram exatamente aquilo que deveriam ser. Pelo contrário, poucas vezes em vida eu observei tanta vaidade e hipocrisia dominando as lideranças que deveriam estar aproveitando ao máximo uma das raras bolhas de fartura que são dadas à uma sociedade - é incrível a semelhança existente entre as histórias das micro e macro sociedades de um país...

Me vi rodeado por uma sociedade da qual não mais me orgulho de participar...

[...] uma sociedade que desde há mais de um século se fustiga ruidosamente por sua hipocrisia, fala prolixamente de seu próprio silêncio, obstina-se em detalhar o que não diz, denuncia os poderes que exerce e promete liberar-se das leis que a fazem funcionar.

Michel Foucault

Mas me orgulho de manter o afeto e o apreço por quase todas as pessoas que formam a minha sociedade... Não culpo o indivíduo pelos erros do coletivo.

Não sem muito esforço, me empenhei em colaborar com àqueles que respeito e em tentar participar da vida de algumas pessoas que me são por demais caras. Curiosamente, quanto menor os meus afetos pelas pessoas maior a chance de meus esforços terem êxito...

Falhei miseravelmente com quem amo.

Mas acabo de perceber que falhei ainda mais miseravelmente com aqueles que me amam... Ou acho que me amam, sei lá... :-P

Procuro não guardar vergonha pelas minhas falências pelo mesmo motivo que procuro não guardar rancor pelas falências daqueles à quem dedico meus afetos. Fazemos o melhor que podemos dadas as nossas limitações e os meios que nos estão disponíveis; eu sei que fiz o melhor que eu pude, e quero pensar que aqueles por quem me afeiçoei também fizeram o mesmo.

Não guardo, porém, mais nenhum pudor em reconhecer meus esforços e os méritos que deles devem vir. Eu sempre soube que sou orgulhoso, e acredito que muitas das falhas que causei ou sofri derivaram dos meus esforços equivocados em domar meu ego (fonte do meu orgulho) - porque descobri recentemente que não devo me envergonhar de meu orgulho:

Lutar pela glória significa "fazer-se superior e desejar que isto também apareça publicamente". Se falta a primeira coisa, e a segunda é mesmo assim desejada, fala-se de vaidade. Quando falta a segunda, e esta ausência não é sentida, fala-se de orgulho.

Friedrich Nieztsche,
Humando, demasiado humano. Páragrafo 170.

Grandes riscos, grandes lucros... Grandes expectativas, grandes decepções...

Hoje tenho plena convicção de que muito de pouco é muito pouco, e de que mais vale um planejamento racional dos meus recursos (sejam eles materiais, espirituais ou emocionais - estes últimos extremamente escassos para mim nos últimos anos) para sobreviver às decepções e prejuízos que as inevitáveis derrotas causarão que jamais ganhar absolutamente nada relevante pelo medo de perder o que já tenho (e o quê tenho eu, no final das contas?!?).

Quero que minhas escolhas equivocadas no passado não sejam desculpas para justificar minhas escolhas equivocadas no presente... E que minhas escolhas equivocadas no presente não sejam desculpas para não resgatar meus equívocos do passado - ao menos, os que são resgatáveis...


Para mim, hoje, está claro que não devo mais pedir o que me é devido, mas exigi-lo. Tão claro quanto saber que também devo aceitar o que me é oferecido espontaneamente - meu orgulho não deve interferir no julgamento dos outros: o que me é oferecido, o é porque julgam-me merecedor.

E quem sou eu para menosprezar o julgamento dos outros? Não sou o único espírito lúcido no mundo, outros podem ver o que meus espelhos escondem de mim... E não são apenas defeitos o que espelhos escondem...

Os olhos são o espelho da alma.

Mas ainda que lúcido, os lampejos continuam a me ofuscar...

Merda! Sou lúcido.


Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Górki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.
Álvaro de Campos
(heterônimo de Fernando Pessoa)

Questões:


4 Lições:

Blogger Danielle Means ensina...

Lucidez traz cabelos brancos...
só não sei te dizer se isso é bom ou ruim.

3 de abr de 2006 20:05:00  
Blogger Ismael ensina...

Lucidez é um fardo enorme, como você deve saber, Lisias. Não à toa já disseram que felizes são os cegos, porque não vêem o errado. Também não vêem o certo, poder-se-ia dizer, mas o que vale é não ver o errado. Ou isso, ou vamos beber e acabar com essa lucidez.

4 de abr de 2006 19:05:00  
Blogger Pink ensina...

Sim, Denielle... Lucidez traz cabelos brancos.

Mas burrice te deixa careca...

Antes grisalho que calvo - mas acho que no meu caso, serei os dois!! :-P

5 de abr de 2006 23:20:00  
Blogger Pink ensina...

Ismael... Meu voto é por encher a cara! :-D

5 de abr de 2006 23:20:00  

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