2006-01-29

Sedução

Motorola Advisor Gold

Como algumas lembranças podem ser doces e inesperadas... :-)

Houve uma época em que eu vivia de prestação de serviços e, como eu também estudava (acreditem, eu já pisei numa universidade!), dar o número do meu celular era suicídio acadêmico. Por isto eu usava um PAGER, exatamente este que ilustra este post.

Um aparelhinho chato, seco, frio e prático. Eu o usava unicamente para acordar pela manhã, receber mensagens profissionais, o boleto economico e as dicas de cinema. Até que...


Eu ainda estava estudando à tarde (o que era um problema), e acho que assistia à aula de Cálculo quando o pager vibra (e quase me mata do coração, como sempre). Pensei "Bosta, o que será que pifou agora?", peguei o cazzo do pager e li:

Amigo, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.

Um minuto de silêncio, a surpresa estampada em meu rosto enquanto eu lia e relia estas linhas do Poeta. Misteriosamente a voz do professor esvaneceu-se em white noise enquanto eu tentava entender o que acontecia - a ficha ainda não tinha caído (sempre fui tapado...)

Subitamente, o pager vibra novamente em minhas mãos:

Vem, amigo
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios

Então a ficha cai - é ela.

Eu sei onde ela está; eu sei o que ela quer... E então eu sei o que quero e onde estarei.

Fecho o caderno, junto minhas tralhas e saio da sala de aula feito um raio - acho que não disse nada, nem dei satisfações à ninguém. Simplesmente me levantei e saí em direção ao estacionamento, onde a D-20 me aguardava como que sabendo o que se passava.

Abro a porta; dou a partida antes mesmo de me sentar ao banco e passar o cinto; engato a primeira e piso fundo.

Eu não sabia que a D-20
podia andar tão rápido,
e de forma tão ágil,
no trânsito desta cidade.

Sinal vermelho; Droga , o sangue já fervia. E então...

Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amigo meu
Em mim como no mar...

Foi a gota d'água.

Em 10 minutos eu quase atropelava o porteiro do condomínio.

Aos 11, a D-20 estava estacionada (jogada é a palavra!!) e trancada na vaga do apartamento dela.

Em 12, espancava a porta no segundo andar.

Aos 13 minutos, a porta se abre. Eu era ansiosamente aguardado, ela estava linda naqueles "trajes"...

E o que então aconteceu não é da conta de mais ninguém...


Não foi meu primeiro contato com Vinícius de Moraes, mas foi o mais marcante. As memórias daqueles poucos mais de 15 minutos entre a primeira mensagem e a abertura daquela porta estão encharcados de desejos que estarão eternamente associados às palavras do Poeta.

Foi quando minha libido descobriu a poesia.

Guardei as mensagens com carinho, as mantive no pager durante anos. Uma pena elas terem se perdido quando acidentalmente deixei o pager cair no chão e destruir-se - o pager se foi, mas não seu conteúdo.

O poema de onde foram adaptadas as estrofes é este:


A ausente

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

Vinícius de Moraes


Talvez seja egoísmo meu, eu admito - mas sinto falta de alguém que seja capaz de me seduzir.

Quero voltar à ser surpreendido por declarações de amor e desejo no meio de um dia chato.

Quero ter vontade de jogar tudo pro alto e deixar que meus desejos me guiem ao encontro daquela por quem ardem meus sonhos.

Quero meus anjos de volta, sinto falta de seus encantos.