2006-01-13

Penso, logo Existo: O Vôo dos Anjos e o Erro de Turing

Durante séculos o Homem acreditou que Voar fosse uma Graça Divina, uma Dádiva, um Dom. Acreditou que apenas Pássaros e Anjos (sim, eles existem... Quem nunca amou uma?) possuíam o Dom de Voar (e que era um Pecado querer imitá-los!). Acreditou que o Dom de Voar diferençiavam Aves e Anjos do restante da Criação Divina.

Mas lá pelos idos de 1809 um padre brasileiro chamado Bartolomeu de Gusmão (surpresos?) inventou uma Máquina de Voar - inspirado por antigos textos incas (surpresos?) com os quais obteve contato durante suas expedições pelos Andes - batizada Passarola.

Usando técnicas e fenômenos que em nada se assemelham à graça do Vôo dos Anjos; que sequer remotamente imitam a técnica do Vôo dos Pássaros, o Homem aprendeu a alçar os céus - não impunemente, contudo.

E as Aves perderam seu Monopólio sobre os céus. E meus Anjos, o seu encanto...


Durante séculos o Homem acreditou que a Inteligência fosse uma Graça Divina, uma Dádiva, um Dom. Acreditou que apenas o Homem possuía o Dom da Inteligência. Acreditou que o Dom da Inteligência era o que nos definia como Seres Humanos; Homo Sapiens; Homem Pensante. E que isto nos diferençiava do restante da Criação Divina.

E com que orgulho louvamo-nos pelo Dom de Pensar!!

Mas lá pelos idos de 1950, Alan Turing (quem não conhece história está condenado à repeti-la!) propôs um teste: se duas pessoas e um computador, via terminal e sem contato físico, conversassem e uma das pessoas não conseguisse descobrir quem era o computador e quem era a outra pessoa, então o computador poderia ser considerado inteligente - ou, dito de outra forma, que é capaz de pensar.

Cogito, ergo sum.

Turing partiu do presuposto de que Inteligência é capaz de reconhecer Inteligência, e que basta Inteligência para nos definirmos como Seres Humanos - uma pessoa considera inteligente alguém (ou algo) que se comporta de uma forma que ela considera inteligente : definimos a inteligência dos outros em função da nossa (até nisso somos egoístas).

Turing era um matemático, um Ser das Ciências Exatas.

Turing acreditava que a Inteligência era a força motriz do Pensamento.

Turing acreditava que um dia as máquinas poderiam pensar.

Turing estava errado.


Inteligência não é o mesmo que Consciência.


Pois a Inteligência é a síntese e a análise objetiva das informações disponíveis com o objetivo de resolver problemas. É apenas uma habilidade (não um sentido), inata em alguns, adquirida (às vezes com duras penas) por outros, inacessível para outros tantos (serão tantos assim como parece ser?).

Já a Consciência é a compreensão da informação disponível; é experimentar, subjetivamente, os fenômenos decorrentes (ou não!) das conclusões sintetizadas pela Inteligência; é a aceitação (ou mesmo negação!) da responsabilidade que nos cabe pelo uso da Inteligência.

A Consciência não é uma habilidade adquirível - acredito que ela nasça conosco, e seja estimulada por uma contínua exposição à sentimentos que a moldam e limitam. E que terminam, então, por nos moldar e limitar.

A Inteligência resolve problemas. A Consciência internaliza conceitos.

E a existência de uma não é conseqüência lógica da outra.


Mesmo que através de abstrações e algoritmos sem relação à forma com que nosso cérebro trabalha, estamos caminhando à passos largos para a construção de máquinas que devem ser, no mínimo, tão inteligentes quanto a maioria de nós.

É quando perderemos nosso Monopólio sobre a Inteligência : O Dom de Pensar, se o definirmos como o mero exercício da Inteligência, será em breve encontrado fartamente em lojas de departamentos - pessoas meramente Inteligentes serão tão úteis quando condutores de charretes numa estação do Metrô...

Que mérito há, então, em ter-se Inteligência num mundo em que máquinas estão tornando-se, também, inteligentes (ainda que usando técnicas e algoritmos que em absolutamente se assemelham aos nossos processos e estados mentais)?

Que mérito há, então, em adquirir-se faculdades e habilidades para a resolução de problemas que - se não hoje, num futuro próximo - poderão ser resolvidos por máquinas?

Que mérito há, então, no uso (e abuso) da Inteligência de forma mecânica - irresponsável e egoísta - à revelia da Justiça e da Ética (conceitos abstratos e, portanto, initeligíveis para seres sem Consciência)?

Que mérito há, então, em sermos apenas Inteligentes???

Será este o motivo pelo qual
tantas pessoas agem de forma desumana nos dias de hoje?

Se desejamos preservar o (pouco) que nos torna humanos, precisamos aprender à valorizar sobretudo nossa Consciência.

Eu desejo.


O uso pleno de minha Inteligência não me foi suficiente quando me vi na necessidade de tomar decisões que influenciariam de forma profunda a minha vida.

O uso da Razão, apenas, não me levou à soluções satisfatórias para os dilemas que me afligiram (e ainda afligem):

  • Não compreendo como pessoas que afirmam me amar me agridem e atormentam de uma forma que eu só faria com quem eu odeio;
  • Não compreendo a facilidade com que pessoas ignoram suas responsabilidades para com aqueles que lhe são dependentes;
  • Não compreendo a dificuldade que algumas pessoas possuem em simplesmente aprender com seus erros ao invés de construir infinitas e intrincadas justificativas autoindulgentes - o que leva à perpetuação destes erros;
  • Não compreendo a busca cega e ignóbil por prazeres imediatos e bens materiais - não há de ficar tudo para trás?
  • Não compreendo minha paciência quase ilimitada com quem não a merece;
  • Não compreendo minha dificuldade em lidar com sentimentos fortes e conflitantes;
  • Não compreendo o motivo pelo qual os pensamentos e desejos daqueles que amo me são tão caros;
  • Não compreendo meus medos e inseguranças;
  • Compreendo apenas que pouco (ou nada) compreendo...

Concluo que minha Inteligência, sozinha, não é capaz de solucionar minhas dúvidas existenciais; de aplacar meus desejos; de explicar meus erros; de compreender meus relacionamentos com outros seres humanos...

E tudo o que me é possível fazer é estar consciente dos fenômenos que permeiam minha existência; é ter Consciência sobre a minha Experiência de Estar Vivo; é estar consciente de que tal experiência é única, mas compartilhável; é ter Consciência de que todos têm a sua própria Consciência...


Minha Consciência é o que me torna Humano.

Para existir plenamente é necessário desenvolver a Consciência de estar vivo; é necessário assumir a Responsabilidade por sua vida.

Eu vivo, Eu lembro.
Eu sinto, Eu vejo.
Eu erro, Eu aprendo.
Eu sonho, Eu desejo.
Eu penso, Eu sou.

Mas os lampejos continuam a me ofuscar...