2005-12-22

A Bandeira do Divino

Natal.

Presentes, comida, família. Não necessariamente nesta ordem... :-P


Dos meus Natais que se foram, tenho lembranças da mais pura alegria de "descobrir" o meu desejado presente embaixo da Árvore de Natal - eu nunca descobri como diabos Papai Noel entrava lá em casa, uma vez que não tínhamos chaminé !!

  • Lembro da bagunça danada que fazíamos na casa da minha avó materna (a casa em que eu escalava as pilastras quando guri - e que agora alcanço o topo apenas levantando os braços...);
  • Lembro de quase ter me matado na rua quando ganhei um skate... Ainda o tenho, esta relíquia, como autêntica prova de que Deus existe e não me quer por perto tão cedo!! :-D
  • Lembro da bagunça danada que fazíamos na casa da minha avó paterna (onde uma vez fiquei preso numa daquelas geladeiras antigas, verdadeiras fortalezas de aço);
  • Lembro de quase ter me matado na rua quando ganhei minha bicicross... Eu queria ter certeza sobre Deus... :-D

Mas à medida que os Natais foram passando, os presentes foram perdendo seu brilho - afinal, descobri que são apenas objetos que podem ser comprados em qualquer dia do ano. Descobri ser mais importante o "ganhar o presente" que o presente.

O esforço e a lembrança de quem dá o presente torna-se, então, aquele verniz especial que transforma um objeto qualquer numa lembrança terna - nosso maior tesouro.


Natal.

Presentes, comida, família. Não necessariamente nesta ordem... :-P


Já nos dias de hoje as espectativas costumam cair na Ceia de Natal:

  • Panettone
  • Peru à Califórnia
  • Torta de Camarão.
  • Panettone
  • Rabanada
  • Castanha Cozida,
  • e mais Panettone...

E lá se vão 2 meses de academia... :-D


Descendente de italiano tem umas manias estranhas... Tal como fazer tanta comida no Natal que você acaba comendo a mesma coisa até o Ano Novo - ou além. Haja Resto De Festa... O:-)

Mas à medida que os Natais estão passando, uma mesa farta vai perdendo seu encanto. Além de eu já não ser mais uma criança em fase de crescimento (vá perder 10 quilos numa esteira...), a verdade é que tenho percebido que nem eu nem as pessoas que sentam comigo à mesa são as mesmas dos Natais passados...

Estamos mais velhos, experientes, vividos e - até mesmo - mais sofridos. As crianças que um dia sentaram àquela mesa falando de brinquedos e fantasias hoje vivem solidão, relacionamentos difíceis (ou pior, fracassados), problemas financeiros e outras pequenas tragédias cotidianas da vida adulta moderna - já não comemoramos tanto o Natal presente, mas as lembranças dos Natais passados.

E descobrimos que A Ceia de Natal é apenas uma boa desculpa para sentarmos todos à mesma mesa e reapresentarmos-nos mutuamente às pessoas que nos tornamos no decorrer do ano.


Natal.

Presentes, comida, família. Não necessariamente nesta ordem... :-P


E então, eis que crianças novamente fazem parte deste Presépio da Vida Real.

  • Correndo pela casa
  • Gritando para todos os lados
  • Perguntando se já é hora de comer
  • Reclamando que Papai Noel tá demorando
  • Jogando papel de embrulho por todos os cantos da casa
  • Esquecendo brinquedos pelo chão
  • Enchendo a casa de alegria

Literalmente revivendo momentos mágicos que até pouco tempo atrás estavam confinados à uma existência volátil em minha memória.

E à medida que os Natais passarão, sei que descobrirei neles uma oportunidade, rara hoje em dia, para que nossas crianças saibam que pertencem à uma família.

Uma família que falha, erra e às vezes fere. Mas ainda uma família.

E, sabendo que pertencem à uma família, saibam aprender como evitar em seus futuros os erros que nós, adultos, cometemos em nossa vida. Este é nosso melhor presente.

E, sabendo que pertencemos à uma família, saibamos reaprender o quão fácil pode ser ter a esperança que elas, crianças, têm nas pessoas que amam. Este é seu melhor presente.


E então é Natal.

Presentes, comida, família. Não necessariamente nesta ordem... :-P


Admito não ter, hoje, uma verve religiosa muito forte. E a pouca que me sobra é diluída por todo o ano - não penso n'Ele apenas no Natal.


Pois descobri em mim fortes tendências gnosticistas que, se por um lado têm resolvido minhas dúvidas sobre pecado e virtude (simplesmente não existem tais coisas!), por outro têm me afastado cada vez mais do padrão de comportamento da maioria dos cristãos da atualidade - o que rende alguns atritos sérios de vez em quando, um bocado de incompreensão e um certo sentimento de deslocamento.

Mas ainda assim, talvez pela saudade dos tempos ingênuos em que eu ainda tinha esperanças no Ser Humano, talvez pela dificuldade em enfrentar a insegurança e o desamparo que me acomete quando me deparo com algumas conclusões mais ásperas, talvez pelo meu forte desejo de seja possível alcançar minhas fortes expectativas, ofereço esta música para vocês.

Será mais fácil levantar esta Bandeira acompanhado.


A Bandeira do Divino
Ivan Lins e Vitor Martins

Os devotos do Divino vão abrir sua morada
Pra bandeira do menino ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai
Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome, ai, ai

A bandeira acredita que a semente seja tanta
Que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai
Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita
Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva, ai, ai

Assim como os três reis magos que seguiram a estrela guia
A bandeira segue em frente atrás de melhores dias
No estandarte vai escrito que ele voltará de novo
E o rei será bendito, ele nascerá do povo, ah, ai

Feliz Natal!

Presentes, comida, família, Amor. Não necessariamente nesta ordem... :-)