2005-10-31

Palavras para um Amigo; Ode à Coragem

O que dizer à um amigo que sofre (muito) as conseqüências de suas (corretas) decisões? Como dizer à ele que, por mais doloroso que seja o processo, outros já passaram por isto? Como dizer à este cara que sei exatamente o que ele passa, tanto como sei o que o espera e o que ele tirará desta história toda? Como encorajá-lo sem minimizar sua dor? Como alertá-lo sem maximizar seu desalento? Como transmitir-lhe minhas experiências sem questionar as dele?


Como dizer que dos que tentam nem todos conseguem,
mas dos que conseguem todos tentaram?

Na falta de idéia melhor, compartilhar minha história me parece ser a melhor atitude.

No entanto...

Perdoem-me aqueles que se machucarem por minhas palavras;
Perdoem-me aqueles que se decepcionarem por minhas palavras;
Perdoem-me aqueles que se desiludirem por minhas palavras;
Perdoem-me por minhas palavras.

É importante confessar: não escolhi meu destino. Minha solidão, minha tristeza, minhas dores e aflições, meu desalento e desespero... não são minha escolha. Não planejei a vida que levo, tampouco pude escolher o rumo que ela levou. O homem que sou hoje não é mérito meu.

Em um certo momento de minha vida tomei as melhores atitudes de que fui capaz com o intuito de oferecer aos meus um futuro melhor. Lamentavelmente não fui compreendido; tampouco o benefício da dúvida me foi dado (como não o é até hoje!). E todos os meus esforços (e não foram poucos!) foram sementes de um futuro que não desejava. Nem merecia...

E no ardor das acusações, alimentadas pela falta de confiança dos que me amaram, pela minha incapacidade de superar minha revolta e pela "sede de justiça" de pessoas que nada sentiam por mim - mas que me julgaram e condenaram assim mesmo - minha vida foi desmontada e os cacos oferecidos em sacrifício ao deus da justiça humana.

E houve luta.

E houve ódio.

E houve o desespero dos que nada entendiam.

E houveram dias em que não sabia onde iria dormir;
E houveram dias em que não sabia se iria dormir...

Mas houve a solidariedade dos que me compreenderam. Não tenho certeza se teria conseguido sem a ajuda e encorajamento de algumas pessoas - serei grato à vocês pelo resto de minha vida.

Meus primeiros meses foram terríveis; trabalhar era uma benção, porque ocupava a minha mente e não deixava espaço para questionamentos que naquele momento eram insolúveis. Mas o retorno ao novo "lar" era inevitavel - e o cheiro de mofo foi meu único companheiro por dias.

Confesso que aprender à dar conta de mim mesmo foi uma dura lição. Lavar a própria louça; arrumar a cama pela manhã ou me deparar com ela desarrumada ao retornar da labuta diária; preparar a própria refeição e depois consumi-la sozinho; Ter a plena convicção de que ou eu executava a tarefa ou ninguém a faria por mim. Ninguém!

Foi um aprendizado duro. Está sendo, aliás... Ainda há muito o que aprender.

Mas de todas as dificuldades que vivi, nenhuma foi tão cruel quanto à ausência daquele pequeno guri que me desejava boa noite ao dormir. Nada foi tão difícil de suportar quanto o silêncio que me respondia ao expressar o desejo de uma boa noite de sono - coisa rara até nos dias de hoje, admito.

Mas os meses foram passando, as feridas cicatrizando e a infinita capacidade de adaptação do ser humano foi finalmente encontrada em algum lugar do meu ser. Finalmente me perguntei "E agora, José?".

Planos precisavam ser traçados. Eu precisava, urgentemente, de um motivo mais gratificante pelo qual trabalhar além de pagar a pensão alimentícia do meu guri... Admito, não sem um certo embaraço, que tais planos eram essencialmente (mas não apenas) materialistas:

  • Tomar uma boa garrafa de vinho semanalmente;
  • Adquirir um computador decente;
  • Comprar um DVD player;
  • E também aquele desejado Home Theater (adoro som! adoro música!!);
  • Uma T.V. tela plana de 31"...
  • TV e Internet à cabo;
  • Um puta video game pro meu guri;
  • E também aqueles livros que quero ler há anos!!
  • Viajar pra algum lugar sempre que me desse na telha;
  • Me reapresentar à mim mesmo (resgatar o homem que fui);
  • Reconstruir minha vida amorosa.

Dar cabo deste plano não foi exatamente um mar de rosas... Muitas coisas foram adiadas, ou simplesmente descartadas por necessidades mais urgentes: a TV ainda está na fila, e o video game foi abortado (o computador tá dando conta do recado).

Mas bebi minhas garrafas de vinho, e fui à Presidente Figueiredo ou à Balbina sempre que pude - sozinho que fosse, mas ia. Tive tardes magníficas lendo Tolkien na Cachoeira da Pedra Furada (o livro tá acabado, coitado!!).

No Natal do ano passado me dei de presente o bendito H.T. e o DVD, e finalmente eu podia fazer algo com meu filho que lembrasse, mesmo que remotamente, os dias felizes em que assistíamos televisão juntos (Reboot, Batman e Batman do Futuro, essencialmente).

E aos trancos e barrancos, o plano está sendo cumprido. Novas metas são adicionadas, outras removidas... Embora algumas metas, dolorosamente importantes, ainda estejam no vermelho (ainda estou sozinho), as que são cumpridas estão me dando uma satisfação que, por mais ridículo que seja, estão finalmente levantando minha auto-estima.

Após 18 meses de solidão, eu finalmente consigo chegar em casa com vontade de estar em casa!! Eu finalmente tenho coisas interessantes em casa para fazer, não é mais apenas limpar privada e lavar louça - o que eu deveria fazer com mais freqüência... Cazzo! Minha casa era um lugar decente, até eu começar a superar meus problemas existenciais... X-P

Se ainda tenho dificuldades em dormir (sozinho, pois acompanhado eu durmo é muito bem!!), ao menos eu tenho prazer no que faço enquanto o sono não vem. It's a improvement, believe me.

Ainda há muito o que fazer, no entanto...

  • Minha prioridade pessoal absoluta, a busca por alguém que aceite meus afetos e me ofereça o aconhego que me faz tanta falta, ainda está enfrentando obstáculos os quais não consigo superar...
  • Meu filho ainda sente falta de Internet e TV à cabo...
  • Ainda sinto falta do meu filho....
  • Minha ânsia de viajar está exigindo lugares mais distantes....
  • Comentei que não agüento mais dormir sozinho??? :-P

Mas nem por isto o que já foi feito é menos importante. Eu estou conseguindo.

Eu ei de aprender um dia.


Portanto, meu amigo de longas sessões de CHAT noturno, permita-me retribuir-te - via Net - o apoio que me deste - via Net - no meu pior momento.

Aceite este testemunho como conselho e fonte de alento: Se eu, que não queria e tanto lutei para evitar (talvez ainda lute, inconscientemente...) estou finalmente me levantando e começando novamente à viver de forma digna, o que dizer de ti que vive hoje por tua própria vontade e decisão?

Tempos difíceis te esperam, decerto; não passarás por isto incólume. Mas teus melhores dias, assim como os meus, ainda estão por vir.


E tais dias serão dias pelos quais valerá a pena estar vivo!

Ouvindo "The Sleeper has awakened", Dune Soundtrack.

Adendo

Fui alertado de que a forma com que expus minhas experiências me colocam como vítima da situação toda, colocando uma pessoa específica como algoz e culpada pelos fatos que relatei.

Bom, não era esta a intenção. Embora eu não tenha sido muito enfático no texto, tudo isto poderia ter sido evitado se pelo menos um dos fatores abaixo tivessem sido evitados:

  • As pessoas que me amaram tivessem confiado mais em mim (notem o plural, por favor);
  • Eu fosse menos orgulhoso e teimoso, e tivesse conseguido superar a revolta que me acometeu ao ser duramente criticado e acusado;
  • Terceiros, que absolutamente nada têm à ver com nossa vida, nos deixassem em paz e fossem cuidar de suas próprias vidas.

Notem então que, embora eu não merecesse, o fato é que fui efetivamente o arquiteto de minhas atribulações. Eu poderia ter evitado tudo isto se fosse capaz de superar a minha revolta - mas não fui. "O Mundo é Mau", vivemos as conseqüências daquilo que fazemos - não do que queríamos ter feito.

Também é importante dizer que as pessoas que erraram comigo no passado não são as mesmas pessoas que erram comigo hoje (bom, nem todas...) - e que tampouco os erros grosseiros que tenho cometido hoje o são com as mesmas pessoas que sofreram meus abusos no passado (bom, nem todos...).

Não sou uma boa pessoa, por mais que eu me esforçe neste sentido. Feri profundamente algumas pessoas - e poucas foram as vezes que estes ferimentos foram merecidos.

O nome deste blog não foi escolhido em vão.

Questões:


2 Lições:

Blogger Marcos ensina...

Cara, como é que você rouba um trecho do post de outra pessoa? Não me diga que apenas copiou. Se tivesse sido apenas isso teria citado a fonte. Isso é roubo. Que você tenha todos seus desejos atendidos e, de quebra, receba de Papai Noel um pouco de dignidade.

11 de dez de 2005 14:43:00  
Blogger Pink ensina...

Bicho, o texto é meu. Palavra por palavra, ponto por ponto.

Nossa amiga em comum me honrou citando este trecho em seu post e me dando crédito.

Quando Papai Noel chegar, com meu pacotinho de dignidade, pedirei que leve um pouco para você também - há pessoas mais necessitadas que eu. ;-)

17 de dez de 2005 13:43:00  

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