2005-06-21

Todos os Olhos (inclusive aquele!!)

A esta altura do campeonato, não é segredo pra ninguém que sou trintão. Trintão de cinto, pra ser mais exato. Isto significa que a minha infância e parte da adolescência aconteceram em pleno Regime Militar. Ditadura. Um General na Presidência (Ernest Geisel era o presidente em '73, se não me engano). AI-5. Repressão. Censura.

Naquela época, toda a produção cultural do país passava pelo crivo da Censura ("Solange!! Solange!! É o fim, Solange!!").

Lá pelos idos de 1973, Tom Zé resolveu dar uma cutucada na onça com vara curta. Seu álbum (é!! vinilzão, Long Play, Bolachão!!) "Todos os Olhos" veio com esta "belezura" de fotografia. Acreditem se puderem, os censores da ditadura não atinaram patavinas sobre o que era final "aquele fundo rosado com uma gema no centro" e liberaram - provavelmeente os censores não tinham vida sexual, não faziam idéia do que se tratava... Tadinhos... :-P

Agora vem a grande piada. Até mesmo este assíduo leitor do Kama Sutra foi enganado por mais de trinta anos!!! Não se trata "daquele" olho, mas sim da boca carnuda (e que boca, hein???) da namorada do fotógrafo!!

A história, contada pelo fotógrafo, é hilária:

O protagonista do "Retiro" era Reinaldo Moraes. Ele trabalhava como assistente de estúdio na agência de publicidade E=mc2, que tinha como sócio Décio Pignatari, já um grande nome da poesia concretista. O chefe encomenda-lhe a foto. E tudo fica por conta do assistente. Inclusive providenciar a modelo.

Aos 22 anos, e diante de tamanha missão, Reinaldo pensa em Vera (nome fictício), uma namorada bissexta, para modelo. Aproveitando um clima de reconciliação, lança um "sabe o Tom Zé?", para introduzir o assunto.

Vera, fã dos tropicalistas e de seu ripongo namorado Reinaldo, aceita o convite. E lá se vão, Vera e Reinaldo, de Fusca até o "Retiro Rodoviário".

A sessão de fotos. No quartinho mal-arrumado do motel, Vera, empolgada, deita-se de costas na lateral da cama. No chão, as bolinhas de gude. Reinaldo posiciona os abajures na diagonal, de modo que a luz incida diretamente sobre o alvo. A lente é uma de 50 mm colocada no avesso para fazer a função de macro, e fica a apenas 20 centímetros do corpo da garota, já quase de cabeça para baixo.

Começam os problemas técnicos. A bolinha não pára. Cai, rola costas abaixo. Tentam-se novas posições. E mais outras. Nada da bolinha estacionar. Reinaldo descreve o desconforto:

"Ela ficou constrangida, quis parar, mas eu estava obstinado. Continuamos tentando. Foi bem complicado..."

A bizarra cena transformou-se em mal-estar. Quando beirava o insuportável, uma das bolinhas parou quieta. Reinaldo descarregou cliques. Consumiu todos os filmes. Testou velocidades, posições da luz, enfim. Fez-se de tudo, menos sexo. Deixaram para trás um quarto cheio de bolinhas pelo chão, sem coragem de se olhar nos olhos.

No dia seguinte, Reinaldo leva o resultado para a apreciação na agência:

"Foi uma atitude poética. Como foto, algumas ficaram ótimas. Mas, mesmo nas melhores, era evidente do que se tratava."

Décio e Marcão, o diretor de arte da agência, ficam desolados. Décio, então, pede nova tentativa ao assistente. E lá vai Reinaldo falar de novo com Vera sobre Tropicalismo... Desta vez, nada de motel. Vão à casa de uma amiga. E, antes que repetissem a luta contra a obviedade fisiológica, uma nova idéia.

Vera tem a boca grossa. Lábios cheios de carne bem rósea. Vale tentar. Ela topa. Prefere. Senta-se no chão com a cabeça jogada na cama e faz biquinho. Uma bolinha é colocada e dali não sai. Os lábios contraídos formam frisos que em muito se parecem com o que devem parecer. Uma única série de cliques basta para, finalmente, realizar a idéia de Pignatari.

Aquele não era tempo de Photoshops, e a imagem é impressa sem retoques. Uma boca se fazendo passar por seu extremo oposto. Simples assim. Nos créditos do LP (reproduzidos em sua reedição em CD) constam: direção de arte de Marcão, fotografia de Reinaldo Moraes.

Leia a íntegra no Carta Capital.

Em tempo, para os que não captaram : "Retiro Rodoviário" é um eufemismo para Motel... Lá em Sampa os Motéis ficavam nas rodovias, era proibido Motel em zona urbana. Ainda bem que não é mais!! O:-)


Agradecimentos ao Paulo Bicarato, do Alfarrábio.