2005-05-23

A Matemática do Tempo: Aritmética de um Rabugento

Era inevitável: finalmente aconteceu.

  • Meu riso não sai mais tão fácil como antes - e se eu já não era muito simpático, hoje flerto com a antipatia como nunca sonhei ser capaz (e sempre fui sonhador);
  • Não sou mais abordado por estranhos com um sorriso no rosto e sincero interesse, mas com um certo enfado e pressa em me desvencilhar deste incômodo - que felizmente somem quando esse estranho ou estranha acabam se revelando dignas de meu interesse (ao menos isto: a maioria das pessoas têm se revelado interessantes, talvez ainda reste esperanças para o meu caso);
  • Me irrito muito quando penso estar perdendo meu tempo com coisas que considero desimportantes - uma hora à mais entre eu e meu destino significam uma hora à menos de Sol, de alegria, de tranqülidade e de descanso (e estas horas me são tão sagradas quanto escassas);
  • E já não olho para o futuro com esperanças de novas conquistas, mas olho à frente com a curiosidade dos que se acham capazes - dos que esperam os resultados das pretensas sábias decisões que tomaram no passado (e tais sábias decisões me são tão sagradas quanto também escassas)...

Passado este que está cada maior, cada vez mais vasto em experiências e lembranças - e um bocado de desgostos (sempre ávidos por mais companhia). Alguns destes, teimosos e insidiosos, insistindo em avançar rumo aos dias que virão...

E então, a dramática conclusão ("Ui! Ui! Ui!", ouço alguém dizer :-D): este meu passado que se expande, se expande como um Buraco Negro que atrai sem escapatória para si a Luz que é emitida pelo Futuro...

Porque a conta dos meus dias já vividos são inexoravelmente cobrados dos meus dias a viver...

E o Passado só sabe somar...


Um economista, devoto de Adam Smith, fatalmente vaticinaria:

_ Poupe vosso Futuro! Ele é a moeda essencial com a qual você adquire a Vida ainda por viver!!

_ Invista seu Passado! Ele é um recurso inesgotável, reciclável e, a cada dia que passa, mais rico!!

Mas onde investir meu Passado? Como poupar meu Futuro?

Espantosamente simples, a resposta me vem à mente : O Presente!

Porque é no Presente que nossos investimentos do Passado se transmutam em poupanças para o nosso Futuro; são nossas lembranças e experiências (vividas em nosso Passado) que nos levam ao Conhecimento.

E o Conhecimento é a matéria prima com a qual pavimentamos um Futuro:

  • Esburacado, e custoso ao trafegar...
  • Ou plano, onde fluimos com a rapidez do Tempo.

Como todo investidor, alegro-me com meus ganhos e irrito-me com minhas perdas - não conheço um único investidor que se compraza em fazer maus investimentos... E se existir algum, acredite, ele não o será por muito tempo.

E é por abominar tais "prejuízos", que pouco agregam à um Passado que a cada dia vale menos (por ser cada vez mais abundante) e que desgostosamente tributam um cada dia mais valioso Futuro (por ser cada vez mais escasso), que culmino por me entregar à Rabugice...


Sim, sou um Rabugento.

  • Porque sou impaciente; para mim quanto mais cedo melhor. Não gosto de esperar, de adiar, de procrastinar, de transferir. E se sou obrigado à tanto, resmungo como resmungaria quem desperdiçasse o último dos seus tostões.
  • Porque sou intolerante; simplesmente levanto e vou embora se algo me desagrada, me desgosta, me irrita. Sem olhar pra trás, sem fazer perguntas, sem esperar por ninguém (às vezes me arrependo depois). E se sou obrigado à tanto (não ir), fico intratável como ficaria intratável quem fosse roubado da poupança de uma vida inteira.
  • Porque sou instransigente; brigo e aporrinho se as coisas caminham para onde eu não quero, para onde eu sei que vão trazer prejuízos (e o prejuízo dos que amo são duplamente meus prejuízos!). E se elas (as coisas) insistem à tanto, espraguejo como espraguejaria quem perdesse o investimento que o faria o mais rico dos homens.

Mas por que sou impaciente, intolerante e intransigente? O que me leva à resmungar, tornar-me intratável ou espraguejar?

Seria eu uma encarnação pós-moderna (atualizada, reciclada e informatizada) de Ebenezer Scrooge? Ou talvez uma versão emotiva (e vítima da Síndrome de Peter Pan) de Scrooge McDuck?

Será que preciso de um psicanalista? Um psiquiatra talvez?

Espero que não... ( Algum geriatra de plantão??? :-P )


Eu apenas penso que estou "cruzando o Cabo da Boa Esperança".

Sendo a expectativa de vida do brasileiro algo em torno de 70 anos, não é irreal imaginar, então, que com meus 35 anos estou próximo (ou já passei) da metade do tempo que me foi dado...

E isto torna cada momento que vivo mais valioso que o momento que já vivi.


Por isto (e algo mais), peço-te de todo meu coração que perdoe minha rabugice.

Pois:

Se estou distante ou não te dou atenção uns dias;
Se estou irascível ou não te desejo bom-dia;
Se estou desatento à tua presença ou te dou as costas;
Se estou absorto em meus pensamentos ou te ignoro propostas;

Se estou mau-humorado ou não disposto à brincar;
Se estou triste ou não disposto à cantar;

E se estou ausente ou não me aproximo de ti...

Não é porque não te quero bem, ou te seja hostil.
Não é porque não sinto tua falta, ou te queira longe léguas a mil.

Não é porque não te ame...

Eu apenas poupo-me do que me faz mal, do que me entristece ou me aborrece.

Para que eu não desperdice tempo com malfeitos, tristezas e aborrecimentos.

Para que eu tenha mais Tempo.

Tempo para investir em você.

Porque Tempo é meu maior e mais valioso presente.


escrito sob os bons auspícios de um honesto Valporicella da Anella Andreani
e inspirado pelo post de um amigo recém-rabugento...