2005-03-16

Carlos Drummond de Andrade

Hoje falo de poesia.

Poesia que fala da vida, de amor e de renúncias. E de escolhas que deixam cicatrizes eternas.

Hoje falo do Poeta Maior, Carlos Drummond de Andrade.

(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Resíduo

Li meus primeiros versos ainda aborrescente - indolente e reticente - pouco antes da morte do Poeta (que ocorreu poucos meses depois do dia em que eu quase retornei à eternidade - o que me marcou ainda mais).

Gostava do que o cara escrevia: eu curtia o ritmo das palavras e eventualmente me estarrecia com o teor - mas raramente eu pude dizer que realmente compreendia o que lia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas

(...)

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
A Máquina do Mundo

Mas apesar da vida, vivi. E ainda vivo. E creio ter vivido algumas das coisas vividas pelo Poeta, porque hoje eu compreendo melhor a dor, a alegria, a dúvida ou mesmo o simples constatação de existir que permeia sua obra. Compreensão esta que veio...

  • quando me impus a renunciar àquelas que me foram queridas;
  • ou quando duvidei daquelas a quem eu era querido...
  • com as alegrias com que o mundo me surpreendeu (e que, normalmente, vêm de onde menos se espera!!);
  • ou das tristezas que me surpreendem no mundo (e que também vêm de onde menos se espera).
  • da constatação de que vivo, e que meu viver afeta a vivência de outros de formas que eu não prevejo;
  • ou da forma que a vivência de outras vidas afetam a minha de forma ainda mais imprevisível.
  • das lembranças das mulheres que deixei para trás;
  • ou das que me deixaram enquanto seguiam à frente.

(E apesar do que vivi, vivo.)

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Os Ombros Suportam o Mundo

Chega num ponto em que vida se repete de uma forma amargamente previsível. Mudam os nomes, mudam as ferramentas, mas os artefatos e as artimanhas são sempre as mesmas.


As pessoas vêm e vão, mas a dor que causam fica.

E pessoas que tú amas te magoam de forma profunda, e então tú magoas profundamente pessoas que te amam. Tú fazes escolhas das quais te arrepende; mas te arrepende ainda mais de escolhas que não fizeste.

Então, contrafeito, reconheces pessoas que amaste ou que odiaste (ou que amaste e odiaste!) nas faces e gestos de outras. E o que seria deliciosa novidade traveste-se de amarga lembrança.

É quando o medo de perder o pouco que conquistaste te impede de conquistar ainda mais.

É quando choras choro amargo e arrependido.

(E, talvez graças ao que chorei, vivo.)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
José

"Não pense que a cabeça aguenta se você parar", aconselhou o mestre. Quando não se sabe para onde se quer ir, todas as estradas servem.

(E então vivo, sem saber para onde ir.)

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
No Meio do Caminho

São muitas as pedras em meu caminho. Incomoda, dói, machuca. Mas algumas escondem tesouros...

Não lembro quem disse que a Humanindade, aqui e acolá, eventualmente tropeça na solução de seus problemas... Mas levanta, sacode a poeira e continua em frente - suprema ironia!

Às vezes eu olho para trás, e fico imaginando se não deixei escapar a minha pedra...

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo
Poema das Sete Faces

Vinho também funciona!!! :-)

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo rriais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visáo extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
Campo de Flores

Sou fã incondicional de Mestre Drummond.

Sou fã incondicional de Mestre Drummond porque sua poesia, que fala do que foi seu passado e do que era seu presente, também fala de meu passado e de meu presente.

Sou fã incondicional de Mestre Drummond porque anseio que sua poesia fale também do meu futuro.


"O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar."

Carlos Drummond de Andrade

Não lembro onde li que Mestre Drummond foi um homem amoroso, fiel e dedicado à somente duas mulheres em vida: sua esposa e sua amante.

É preciso ser muito homem pra dedicar sua vida à duas mulheres - eu penso que o coração de Drummond era tão vasto que foram necessárias duas almas para preenchê-lo. Simultaneamente...


"Há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la."
Carlos Drummond de Andrade

Ainda estou à procura de alguém que me oferte este motivo (ofereço aqueles vários em troca). Não é tão fácil quanto pensava aquele já distante aborrescente (indolente e reticente), mas Drummond conseguiu não apenas uma, mas duas vezes...

Sou fã incondicional de Mestre Drummond.