2005-01-23

A Face da Bota

Georges Well, em seu romance de ficção científica (ou nem tanto) "1984", descreveu um mundo onde a presença do Grande Irmão controlava a tudo e a todos, esmagando - lenta mas persistentemente - toda forma de individualidade e individualismo.

É óbvio que ainda não chegamos à este estágio de controle estatal sobre nossas vidas - com a benção de Deus - uma vez que ainda há pessoas na face deste planeta que honram os polegares opostos que têm (mas me parece que há cada vez menos). Mas o processo continua, seja em prol do combate ao terrorismo (supremo cinismo : "no blood for oil", eles dizem...) seja em prol das comodidades da vida moderna. E é esta última a que mais me preocupa.

Me preoupa por cada vez mais nos expomos eletronicamente, constantemente alimentando e retroalimentando nossos alter egos digitais com informações que - efetivamente - nos descrevem, nos representam, nos precedem e até mesmo - Ó Deus - nos definem.


Esta exposição, é óbvio, não é maligna por si mesma. Contudo não é intrinsicamente benigna...


Porque nos expomos muito mais que nossos pais, somos muito mais julgados hoje que antes. Somos julgados não apenas por nossos conhecidos, semelhantes ou parentes - mas por simplemente qualquer indivíduo que tenha acesso aos nossos alter egos digitais. E isso é muita, mas muita gente. Mais do que considero saudável.

E porque somos julgados amiúde, e o fruto deste "julgamento virtual" fatalmente nos afeta na "Real Life", é evidente que normalmente nosso alter ego digital não corresponde exatamente ao que somos na realidade - mas sim à versões censuradas de nós mesmos para satisfazer ao que acreditamos que seja "aceitável" para a maior quantidade de gente possível. Fatalmente, acabamos por sermos tolhidos em nossa liberdade de exercermos nossa individualidade digital pelo medo que temos das conseqüências dos julgamentos de gente que nem sabemos (ainda) quem são... E sim, estes casos são mais comuns do que parece - tenho visto isto no Orkut (suprema ferramenta de hedonismo digital!!).

Ao mesmo tempo, eis que percebo outro fenômeno que, superficialmente, não possui relações com as idéias acima : as massas estão cada vez mais medíocres. E esta mediocridade está sendo, literalmente, institucionalizada.


Institucionalizada:

  • pela reserva artificial, burra e sem critério de recursos valiosos para minorias (não que eu seja contra quotas, sou contra forma com que elas têm sido aplicadas);
  • pelo culto indiscriminado ao politicamente correto;
  • pela massificação mercantil da cultura - nivelando por baixo o pensamento crítico;
  • pelo crescente menosprezo aos que se destacam da massa de alguma forma... (experimentem tirar 10 dois bimestres seguidos no colegial em matemática)
  • pela indiferença cada vez maior para com nossos semelhantes;
  • pelo patriotismo estúpido, cego, incondicional e mesquinho;
  • pela intolerância cada vez maior para com nossos desiguais.

É agora que começa a minha "viagem" :-P ...

É minha tese que, uma vez que cada vez mais nossas presenças digitais são submetidas ao escrutínio público - e assumindo como axioma que as massas estão cada vez mais medíocres - o resultado final é que, com raríssimas e honrosas exceções, os tais alter egos digitais são apenas uma sombra mediocrizada da real persona. Poucas são os dispostos à correrem o risco de se tornarem personas non grata na vida real como conseqüència do julgamento de nossos equivalentes digitais que, por infelicidade, inflamem a ira mediocrizante e mediocrizada de algum paladino da justiça, dos bons costumes e do temor à Deus nosso Senhor...


Isto já ocorre no nosso cotidiano : olhem ao seu redor (mas não percam de vista a linha do horizonte).


E uma vez que nossos alter egos digitais estão, cada vez mais, nos precendo nas nossas (preciosas, diga-se de passagem) interações sociais, preocupo-me cada vez mais com o tipo de sociedade que me espera no futuro.

As coisas não aconteceram exatamente da forma que Georges Well descreveu, mas aconteceram - e ainda acontecem.


O Grande Irmão somos nós.

"Cuidado com os baobás"...